19.11.13
PRA BOM ENTENDEDOR, UMA CAMISINHA BASTA (OU NOTAS DE DESPEITO)
19.9.11
NINGUÉM É PROFETA NA PRÓPRIA TERRA - OU TODOS PRECISAM IR EMBORA
Porque nossas posturas frente às minúcias da vida começam gradualmente a ser limitadas pela nossa rotina e pelo nosso círculo social. Passamos a restringir nossas atitudes em função daquilo que os que nos circundam estão acostumados a receber, e do que nossa rotina exige de nós. A volubilidade no ser humano não é bem quista, embora originalmente natural – todos acabamos reprimindo isso no processo de formação de identidade social, tem a ver com valores que foram determinados como indispensáveis, outra discussão. A questão é que somos geridos por uma força invisível que nos compele a ser a mesma coisa sempre e rechaçar a possibilidade de posicionarmos diferentemente daquilo identificado como a nossa personalidade estabelecida. O ser humano é todo ação-reação: age sobre uma coisa porque conta com a reação que a ação causa, fala certa coisa porque presume a inferência que o interlocutor vai fazer, toma certo atalho porque sabe que poupará tempo e chegará ao destino, come em determinado lugar porque a comida é boa – isso tudo se resume a ação-reação. Para todas as nossas ações contamos com reações já previstas. Isso cria na gente aversão à mudança e medo do novo, porque não sabemos o que esperar (enquanto já temos um inventário do padrão de reação àquilo que fazemos e somos sempre).
Por isso eu digo que todos devem ir embora de vez em quando,
porque ninguém é profeta na própria terra.
Superado o aforismo, vamos tentar ir além do ‘ninguém é alguém na própria terra’, ampliando um tiquinho o campo semântico habitual ao qual somos conduzidos por profeta/profetizar/profecia. Profeta é aquele que prediz o futuro, e, para predizer o futuro se faz necessária algum tipo de habilidade não ordinária, ver as coisas que os outros não veem – vamos também abstrair a natural suposição de superioridade que essa afirmação vai causar, porque no lugar onde eu quero chegar todos devem ser profetas -, por ter alcançado outro grau de sensibilidade. Assim, ninguém pode ser profeta na própria terra, porque a própria terra (nossa zona de conforto) nos impede de atingir o nível mais aguçado de sensibilidade que nos permite perceber as coisas de outras maneiras (notem bem que não é substituir uma por outra, é substituir uma por todas), porque em casa sofremos as influências daquelas forças de que falei, e só a distância de todo o previamente convencionado para nós nos permite aprender certas coisas.
A distância do nosso (0,0,0,0) faz milagre. Nossas percepções e reações are no longer determinadas pelas convicções que sempre mantivemos; não precisarmos mais lidar com aquilo e aqueles que dependem de uma postura particular nossa pra não se confundir com a entrada de significações acerca de nós que fizeram já no cérebro. Dá pra ser qualquer coisa, isso é lindo, porque ser algo diferente propicia toda uma série de oportunidades para as quais estamos cegos na bolha do costume e comodismo.
Ideologias deformam nossa percepção de mundo, e eu não prego o vira-casaquismo, mas apoio o engavetamento de ideologias em certos momentos em prol da possibilidade de viver algo diferente. Que não precisamos absorver tudo que as pessoas têm pra nos mostrar, mas ver o que tem de diferente por aí é fundamental pra sabermos do que acreditamos e falamos, e muito muito MUITO importante pra não nos cerrarmos na prepotência.
A volubilidade não é deletéria. Várias facetas não pressupõem falta de caráter. Abandonar tudo pra viver algo diferente não é medo de enfrentar a vida que se tem. Não saber como e onde se vai terminar o mês não é preocupação. Não ter onde ficar não é um problema.
16.4.11
MANIA DE CTRL+S
Começou tudo a ir por água abaixo quando detectou a mania de CTRL+S, que é mania de absoluto, como você já deve saber. Daí passou a contar os degraus ao invés das fechaduras, e a contar as pessoas que entravam e as que saíam também (a quantidade de vezes que a porta da frente batia). Pensava que vida tri era a da dinda, feita de reléx no sofá com mariola, porque gostava mesmo era da vida um tom acima, e isso não dava pra fazer sempre (simplesmente porque não, dizia(m)). Acabou que a chumbeira foi passando e dormir de meia ficou só pros dias mais tristes. Caiu. Anunciaban los salseros el concierto y la gran estapafúrdia sonegável e inconcebível fábula do marimbondo azul. Deixar disso nada, que se faz daí? Assiste uma parada qualquer pra fazer de mote em dístico? Não vinga, corre atrás, esse é só o prefácioprólogoproêmio sem hífen e sem volta da vida. O acento é na merda mesmo, minha senhora, liga não, na vida pra brincar e ser feliz não estamos todos? Quero ver é passar um pouco de trabalho, mas não agora. Acontecendo depois de querer a todo custo voltar atrás , ih! que problema. Que o absoluto só dá pra substituir por outro absoluto por cima e ninguém nunca lembra de tudo em todos os detalhes até os ruins. Aí, prezado, não tem como fazer o mundo voltar a ser o mundo que era antes, deixasse que depois ficava tudo bem porque o que não tem remédio remediado está. Mas essa mania de proverbialismos é de outro capítulo. A palavra do dia de todos os dias agora é FLUXO, o que não dá nada já que depois vai ser outra, porque a mania é de CTRL+S e não de CTRL+Z.
2.3.09
DE CAVALO DADO NÃO SE OLHA OS DENTES
- A gente vai casar.
Disse isso e atravessou a rua quase causando um engavetamento, pois a rua não parou para que atravessasse. Ela não viu mais que passos largos e uma nuca donos de um comunicado de matrimônio anônimo.
Saiu caminhando em passos miúdos, um pouco e só às vezes equilibrando-se no meio-fio, refletindo consternada, querendo de volta a tranqüilidade recém conquistada com o cigarro e roubada pelo anúncio. Com a impressão de que viu algo que não deveria ter ignorado, sentou-se num banco no centro da praça para três segundos depois levantar e verificar o assento de madeira verde, onde perfeitamente entalhada estava a inscrição: ‘Será da Igreja do Bonfim’.
Onze dias depois ainda não havia decidido se acatava ou não à decisão do desconhecido. Antes de dormir, ao beber água e enquanto fracassava ao fritar um ovo procurou imaginar-se casada. Serviu a mesa do café para um e sentou preocupada, pois não tinha louça para dois. Folheava o jornal procurando uma imagem para recortar e prender na geladeira quando enxergou um anúncio bem pequeno em caixa alta, abaixo das notícias sobre os conflitos no Oriente Médio, que dizia: ‘teremos três filhos’. Chorou. Não tinha louça para cinco.