19.11.13

PRA BOM ENTENDEDOR, UMA CAMISINHA BASTA (OU NOTAS DE DESPEITO)



sonhei outro dia que tu não me tinha devolvido ainda todos os livros
e que, por trás da campainha, era tu na porta me devolvendo
- junto com eles –
também os outros sonhos que a gente tinha sonhado juntos

 depois sonhei que colava em fotos bonitas outras cabeças
- as nossas -
olhando a parede vazia, lembrei que as fotos de verdade guardei
debaixo da pilha de livros que não tenho pra ler

sonhei que matava piratas pra viver
que andava sem rumo pelas ruas porque se voltasse pra casa não poderia falar
que Darwin vinha até mim certificar-me como a evolução da espécie que sabe dançar

depois de tudo, sonhei o óbvio,
que sonhava sonhar esses sonhos todos,
e que o Jung aparecia pra ralhar comigo,
dizendo que eu vinha sonhando sonhar todos os clichês do subconsciente
- só pra ter sobre o que escrever -

quando acordei,
passei a encontrar uma nota novinha de 20 toda vez que olhava a carteira,
e uma lata de cerveja gelada quando abria a geladeira,
e um romance pronto e encadernado sempre que puxava a gaveta

saí navegando uma miniatura de veleiro,
fumava o mesmo cigarro desde já não sabia há quanto tempo,
mas sempre que tomava consciência estava na mesa da sala
e a mãe chegava com café e pães de queijo quentinhos pra mim
e era só sentar na poltrona que me teleportava pra junto dos amigos queridos
e era só sair pra pedalar que adentrava a dimensão da deriva

tomo agora a cachaça que abri pro amigo errado,
respondo o bilhete que me deixara sem palavra,
escolho títulos pra poemas e capítulos
- ainda que inacabados –

retiro da parede todos os quadros,
consumo da geladeira todos os restos,
e selo o envelope
– a ti endereçado –
que contém este poema.

19.9.11

NINGUÉM É PROFETA NA PRÓPRIA TERRA - OU TODOS PRECISAM IR EMBORA

Porque nossas posturas frente às minúcias da vida começam gradualmente a ser limitadas pela nossa rotina e pelo nosso círculo social. Passamos a restringir nossas atitudes em função daquilo que os que nos circundam estão acostumados a receber, e do que nossa rotina exige de nós. A volubilidade no ser humano não é bem quista, embora originalmente natural – todos acabamos reprimindo isso no processo de formação de identidade social, tem a ver com valores que foram determinados como indispensáveis, outra discussão. A questão é que somos geridos por uma força invisível que nos compele a ser a mesma coisa sempre e rechaçar a possibilidade de posicionarmos diferentemente daquilo identificado como a nossa personalidade estabelecida. O ser humano é todo ação-reação: age sobre uma coisa porque conta com a reação que a ação causa, fala certa coisa porque presume a inferência que o interlocutor vai fazer, toma certo atalho porque sabe que poupará tempo e chegará ao destino, come em determinado lugar porque a comida é boa – isso tudo se resume a ação-reação. Para todas as nossas ações contamos com reações já previstas. Isso cria na gente aversão à mudança e medo do novo, porque não sabemos o que esperar (enquanto já temos um inventário do padrão de reação àquilo que fazemos e somos sempre).


Por isso eu digo que todos devem ir embora de vez em quando,

porque ninguém é profeta na própria terra.


Superado o aforismo, vamos tentar ir além do ‘ninguém é alguém na própria terra’, ampliando um tiquinho o campo semântico habitual ao qual somos conduzidos por profeta/profetizar/profecia. Profeta é aquele que prediz o futuro, e, para predizer o futuro se faz necessária algum tipo de habilidade não ordinária, ver as coisas que os outros não veem – vamos também abstrair a natural suposição de superioridade que essa afirmação vai causar, porque no lugar onde eu quero chegar todos devem ser profetas -, por ter alcançado outro grau de sensibilidade. Assim, ninguém pode ser profeta na própria terra, porque a própria terra (nossa zona de conforto) nos impede de atingir o nível mais aguçado de sensibilidade que nos permite perceber as coisas de outras maneiras (notem bem que não é substituir uma por outra, é substituir uma por todas), porque em casa sofremos as influências daquelas forças de que falei, e só a distância de todo o previamente convencionado para nós nos permite aprender certas coisas.


A distância do nosso (0,0,0,0) faz milagre. Nossas percepções e reações are no longer determinadas pelas convicções que sempre mantivemos; não precisarmos mais lidar com aquilo e aqueles que dependem de uma postura particular nossa pra não se confundir com a entrada de significações acerca de nós que fizeram já no cérebro. Dá pra ser qualquer coisa, isso é lindo, porque ser algo diferente propicia toda uma série de oportunidades para as quais estamos cegos na bolha do costume e comodismo.


Ideologias deformam nossa percepção de mundo, e eu não prego o vira-casaquismo, mas apoio o engavetamento de ideologias em certos momentos em prol da possibilidade de viver algo diferente. Que não precisamos absorver tudo que as pessoas têm pra nos mostrar, mas ver o que tem de diferente por aí é fundamental pra sabermos do que acreditamos e falamos, e muito muito MUITO importante pra não nos cerrarmos na prepotência.


A volubilidade não é deletéria. Várias facetas não pressupõem falta de caráter. Abandonar tudo pra viver algo diferente não é medo de enfrentar a vida que se tem. Não saber como e onde se vai terminar o mês não é preocupação. Não ter onde ficar não é um problema.


16.4.11

MANIA DE CTRL+S

Começou tudo a ir por água abaixo quando detectou a mania de CTRL+S, que é mania de absoluto, como você já deve saber. Daí passou a contar os degraus ao invés das fechaduras, e a contar as pessoas que entravam e as que saíam também (a quantidade de vezes que a porta da frente batia). Pensava que vida tri era a da dinda, feita de reléx no sofá com mariola, porque gostava mesmo era da vida um tom acima, e isso não dava pra fazer sempre (simplesmente porque não, dizia(m)). Acabou que a chumbeira foi passando e dormir de meia ficou só pros dias mais tristes. Caiu. Anunciaban los salseros el concierto y la gran estapafúrdia sonegável e inconcebível fábula do marimbondo azul. Deixar disso nada, que se faz daí? Assiste uma parada qualquer pra fazer de mote em dístico? Não vinga, corre atrás, esse é só o prefácioprólogoproêmio sem hífen e sem volta da vida. O acento é na merda mesmo, minha senhora, liga não, na vida pra brincar e ser feliz não estamos todos? Quero ver é passar um pouco de trabalho, mas não agora. Acontecendo depois de querer a todo custo voltar atrás , ih! que problema. Que o absoluto só dá pra substituir por outro absoluto por cima e ninguém nunca lembra de tudo em todos os detalhes até os ruins. Aí, prezado, não tem como fazer o mundo voltar a ser o mundo que era antes, deixasse que depois ficava tudo bem porque o que não tem remédio remediado está. Mas essa mania de proverbialismos é de outro capítulo. A palavra do dia de todos os dias agora é FLUXO, o que não dá nada já que depois vai ser outra, porque a mania é de CTRL+S e não de CTRL+Z.

2.3.09

DE CAVALO DADO NÃO SE OLHA OS DENTES

Precisou olhar para o chão e assegurar-se de que não havia largado a bituca do cigarro num amontoado de palha, mesmo consciente de que um amontoado de palha não poderia estar naquela calçada. O pulo assustado que normalmente daria naquela situação não veio quando tornou a olhar para frente e não viu a rua, sim um homem que muito provavelmente nunca havia visto antes parado a uns três palmos adultos de distância dizendo:

- A gente vai casar.

Disse isso e atravessou a rua quase causando um engavetamento, pois a rua não parou para que atravessasse. Ela não viu mais que passos largos e uma nuca donos de um comunicado de matrimônio anônimo.

Saiu caminhando em passos miúdos, um pouco e só às vezes equilibrando-se no meio-fio, refletindo consternada, querendo de volta a tranqüilidade recém conquistada com o cigarro e roubada pelo anúncio. Com a impressão de que viu algo que não deveria ter ignorado, sentou-se num banco no centro da praça para três segundos depois levantar e verificar o assento de madeira verde, onde perfeitamente entalhada estava a inscrição: ‘Será da Igreja do Bonfim’.


Onze dias depois ainda não havia decidido se acatava ou não à decisão do desconhecido. Antes de dormir, ao beber água e enquanto fracassava ao fritar um ovo procurou imaginar-se casada. Serviu a mesa do café para um e sentou preocupada, pois não tinha louça para dois. Folheava o jornal procurando uma imagem para recortar e prender na geladeira quando enxergou um anúncio bem pequeno em caixa alta, abaixo das notícias sobre os conflitos no Oriente Médio, que dizia: ‘teremos três filhos’. Chorou. Não tinha louça para cinco.