19.11.13

PRA BOM ENTENDEDOR, UMA CAMISINHA BASTA (OU NOTAS DE DESPEITO)



sonhei outro dia que tu não me tinha devolvido ainda todos os livros
e que, por trás da campainha, era tu na porta me devolvendo
- junto com eles –
também os outros sonhos que a gente tinha sonhado juntos

 depois sonhei que colava em fotos bonitas outras cabeças
- as nossas -
olhando a parede vazia, lembrei que as fotos de verdade guardei
debaixo da pilha de livros que não tenho pra ler

sonhei que matava piratas pra viver
que andava sem rumo pelas ruas porque se voltasse pra casa não poderia falar
que Darwin vinha até mim certificar-me como a evolução da espécie que sabe dançar

depois de tudo, sonhei o óbvio,
que sonhava sonhar esses sonhos todos,
e que o Jung aparecia pra ralhar comigo,
dizendo que eu vinha sonhando sonhar todos os clichês do subconsciente
- só pra ter sobre o que escrever -

quando acordei,
passei a encontrar uma nota novinha de 20 toda vez que olhava a carteira,
e uma lata de cerveja gelada quando abria a geladeira,
e um romance pronto e encadernado sempre que puxava a gaveta

saí navegando uma miniatura de veleiro,
fumava o mesmo cigarro desde já não sabia há quanto tempo,
mas sempre que tomava consciência estava na mesa da sala
e a mãe chegava com café e pães de queijo quentinhos pra mim
e era só sentar na poltrona que me teleportava pra junto dos amigos queridos
e era só sair pra pedalar que adentrava a dimensão da deriva

tomo agora a cachaça que abri pro amigo errado,
respondo o bilhete que me deixara sem palavra,
escolho títulos pra poemas e capítulos
- ainda que inacabados –

retiro da parede todos os quadros,
consumo da geladeira todos os restos,
e selo o envelope
– a ti endereçado –
que contém este poema.

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