Porque nossas posturas frente às minúcias da vida começam gradualmente a ser limitadas pela nossa rotina e pelo nosso círculo social. Passamos a restringir nossas atitudes em função daquilo que os que nos circundam estão acostumados a receber, e do que nossa rotina exige de nós. A volubilidade no ser humano não é bem quista, embora originalmente natural – todos acabamos reprimindo isso no processo de formação de identidade social, tem a ver com valores que foram determinados como indispensáveis, outra discussão. A questão é que somos geridos por uma força invisível que nos compele a ser a mesma coisa sempre e rechaçar a possibilidade de posicionarmos diferentemente daquilo identificado como a nossa personalidade estabelecida. O ser humano é todo ação-reação: age sobre uma coisa porque conta com a reação que a ação causa, fala certa coisa porque presume a inferência que o interlocutor vai fazer, toma certo atalho porque sabe que poupará tempo e chegará ao destino, come em determinado lugar porque a comida é boa – isso tudo se resume a ação-reação. Para todas as nossas ações contamos com reações já previstas. Isso cria na gente aversão à mudança e medo do novo, porque não sabemos o que esperar (enquanto já temos um inventário do padrão de reação àquilo que fazemos e somos sempre).
Por isso eu digo que todos devem ir embora de vez em quando,
porque ninguém é profeta na própria terra.
Superado o aforismo, vamos tentar ir além do ‘ninguém é alguém na própria terra’, ampliando um tiquinho o campo semântico habitual ao qual somos conduzidos por profeta/profetizar/profecia. Profeta é aquele que prediz o futuro, e, para predizer o futuro se faz necessária algum tipo de habilidade não ordinária, ver as coisas que os outros não veem – vamos também abstrair a natural suposição de superioridade que essa afirmação vai causar, porque no lugar onde eu quero chegar todos devem ser profetas -, por ter alcançado outro grau de sensibilidade. Assim, ninguém pode ser profeta na própria terra, porque a própria terra (nossa zona de conforto) nos impede de atingir o nível mais aguçado de sensibilidade que nos permite perceber as coisas de outras maneiras (notem bem que não é substituir uma por outra, é substituir uma por todas), porque em casa sofremos as influências daquelas forças de que falei, e só a distância de todo o previamente convencionado para nós nos permite aprender certas coisas.
A distância do nosso (0,0,0,0) faz milagre. Nossas percepções e reações are no longer determinadas pelas convicções que sempre mantivemos; não precisarmos mais lidar com aquilo e aqueles que dependem de uma postura particular nossa pra não se confundir com a entrada de significações acerca de nós que fizeram já no cérebro. Dá pra ser qualquer coisa, isso é lindo, porque ser algo diferente propicia toda uma série de oportunidades para as quais estamos cegos na bolha do costume e comodismo.
Ideologias deformam nossa percepção de mundo, e eu não prego o vira-casaquismo, mas apoio o engavetamento de ideologias em certos momentos em prol da possibilidade de viver algo diferente. Que não precisamos absorver tudo que as pessoas têm pra nos mostrar, mas ver o que tem de diferente por aí é fundamental pra sabermos do que acreditamos e falamos, e muito muito MUITO importante pra não nos cerrarmos na prepotência.
A volubilidade não é deletéria. Várias facetas não pressupõem falta de caráter. Abandonar tudo pra viver algo diferente não é medo de enfrentar a vida que se tem. Não saber como e onde se vai terminar o mês não é preocupação. Não ter onde ficar não é um problema.
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