sonhei outro dia que tu não me tinha
devolvido ainda todos os livros
e que, por trás da campainha, era tu na
porta me devolvendo
- junto com eles –
também os outros sonhos que a gente tinha
sonhado juntos
depois sonhei que colava em fotos bonitas
outras cabeças
- as nossas -
olhando a parede vazia, lembrei que as
fotos de verdade guardei
debaixo da pilha de livros que não tenho
pra ler
sonhei que matava piratas pra viver
que andava sem rumo pelas ruas porque se
voltasse pra casa não poderia falar
que Darwin vinha até mim certificar-me
como a evolução da espécie que sabe dançar
depois de tudo, sonhei o óbvio,
que sonhava sonhar esses sonhos todos,
e que o Jung aparecia pra ralhar comigo,
dizendo que eu vinha sonhando sonhar
todos os clichês do subconsciente
- só pra ter sobre o que escrever -
quando acordei,
passei a encontrar uma nota novinha de 20
toda vez que olhava a carteira,
e uma lata de cerveja gelada quando abria
a geladeira,
e um romance pronto e encadernado sempre
que puxava a gaveta
saí navegando uma miniatura de veleiro,
fumava o mesmo cigarro desde já não sabia
há quanto tempo,
mas sempre que tomava consciência estava
na mesa da sala
e a mãe chegava com café e pães de queijo
quentinhos pra mim
e era só sentar na poltrona que me
teleportava pra junto dos amigos queridos
e era só sair pra pedalar que adentrava a
dimensão da deriva
tomo agora a cachaça que abri pro amigo
errado,
respondo o bilhete que me deixara sem
palavra,
escolho títulos pra poemas e capítulos
- ainda que inacabados –
retiro da parede todos os quadros,
consumo da geladeira todos os restos,
e selo o envelope
– a ti endereçado –
que contém este poema.