2.3.09

DE CAVALO DADO NÃO SE OLHA OS DENTES

Precisou olhar para o chão e assegurar-se de que não havia largado a bituca do cigarro num amontoado de palha, mesmo consciente de que um amontoado de palha não poderia estar naquela calçada. O pulo assustado que normalmente daria naquela situação não veio quando tornou a olhar para frente e não viu a rua, sim um homem que muito provavelmente nunca havia visto antes parado a uns três palmos adultos de distância dizendo:

- A gente vai casar.

Disse isso e atravessou a rua quase causando um engavetamento, pois a rua não parou para que atravessasse. Ela não viu mais que passos largos e uma nuca donos de um comunicado de matrimônio anônimo.

Saiu caminhando em passos miúdos, um pouco e só às vezes equilibrando-se no meio-fio, refletindo consternada, querendo de volta a tranqüilidade recém conquistada com o cigarro e roubada pelo anúncio. Com a impressão de que viu algo que não deveria ter ignorado, sentou-se num banco no centro da praça para três segundos depois levantar e verificar o assento de madeira verde, onde perfeitamente entalhada estava a inscrição: ‘Será da Igreja do Bonfim’.


Onze dias depois ainda não havia decidido se acatava ou não à decisão do desconhecido. Antes de dormir, ao beber água e enquanto fracassava ao fritar um ovo procurou imaginar-se casada. Serviu a mesa do café para um e sentou preocupada, pois não tinha louça para dois. Folheava o jornal procurando uma imagem para recortar e prender na geladeira quando enxergou um anúncio bem pequeno em caixa alta, abaixo das notícias sobre os conflitos no Oriente Médio, que dizia: ‘teremos três filhos’. Chorou. Não tinha louça para cinco.

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